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O dia em que uma fita velha pode voltar a contar uma história

Há objetos que parecem perder valor com o passar dos anos, mas que, na verdade, ganham importância justamente porque o tempo passa. Uma fotografia guardada dentro de uma caixa, uma fita VHS esquecida no fundo de um armário, um CD que ninguém mais consegue reproduzir ou uma gravação de voz feita há décadas podem carregar algo que nenhum arquivo novo consegue reproduzir: a sensação de voltar a um momento que já não existe da mesma maneira.

É nesse ponto que a digitalização deixa de ser apenas uma questão tecnológica e passa a ser uma forma de preservação. O problema é que muitos desses formatos foram criados para durar, mas não necessariamente para acompanhar a evolução da tecnologia. O próprio Smithsonian Institution Archives destaca que, para determinados materiais audiovisuais analógicos, a digitalização pode ser a única maneira de preservá-los, principalmente diante do envelhecimento das mídias e dos equipamentos necessários para reproduzi-las.

Um exemplo interessante vem justamente de uma instituição conhecida mundialmente por preservar histórias: o Smithsonian. Em projetos de preservação comunitária, famílias levaram fotografias, vídeos e filmes antigos para serem digitalizados, permitindo que aquelas recordações fossem novamente acessadas e compartilhadas pelas novas gerações. Em uma dessas iniciativas, participantes puderam recuperar versões digitais de fotografias e vídeos familiares que poderiam, com o tempo, se deteriorar.

O mais interessante nessa história é perceber que não estamos falando necessariamente de documentos raros ou de grandes acontecimentos históricos. Para uma família, a gravação de uma festa de aniversário pode ter tanto significado quanto uma fotografia histórica para um museu. O vídeo de uma criança dando os primeiros passos, a voz de um avô que já não está presente, as imagens de um casamento ou aquela fotografia em que todos ainda estavam juntos podem se transformar em verdadeiros patrimônios afetivos.

É justamente essa visão que inspira o trabalho da Caixa de Memórias, vertente do Grupo EscaEsco dedicada a transformar lembranças que estão presas em formatos antigos em arquivos que podem continuar fazendo parte da vida das pessoas. Digitalizar não significa jogar fora o original ou simplesmente transferir um arquivo de um formato para outro. Significa criar uma nova possibilidade de acesso àquela memória, facilitando sua conservação, reprodução e compartilhamento.

Existe ainda uma mudança silenciosa acontecendo dentro das famílias. Antes, era comum reunir fotografias em álbuns e guardar fitas em caixas. Hoje, filhos e netos vivem em cidades diferentes, muitas vezes em países diferentes. Uma memória que antes ficava restrita a um armário pode ser compartilhada com toda a família. Uma gravação antiga pode ser assistida novamente por pessoas que sequer haviam nascido quando ela foi feita.

O próprio Smithsonian recomenda que arquivos digitais pessoais tenham cópias de segurança e que sejam migrados periodicamente para novas mídias, já que a preservação digital também exige cuidados ao longo do tempo.  Isso mostra que preservar uma memória não termina no momento em que ela é digitalizada. É preciso pensar também em armazenamento, organização e segurança para que aquele arquivo continue acessível no futuro.

Para Victor Escobar, diretor do Grupo EscaEsco, existe uma dimensão humana nesse processo que vai muito além da tecnologia: “Quando digitalizamos uma memória, não estamos apenas recuperando uma imagem ou uma gravação. Estamos criando uma oportunidade para que uma história continue sendo contada por quem ainda vai chegar.”

Essa talvez seja uma das grandes diferenças entre guardar e preservar. Guardar é colocar uma fita dentro de uma caixa e esperar que ela continue lá. Preservar é tomar uma atitude antes que o tempo decida por nós. A fita pode se desgastar, o CD pode deixar de funcionar, a fotografia pode perder suas cores e o equipamento necessário para reproduzir determinado formato pode simplesmente desaparecer do cotidiano.

Na Caixa de Memórias, a proposta é justamente impedir que uma história termine por falta de tecnologia para acessá-la. Porque, no fim das contas, uma fotografia antiga não é apenas uma fotografia. Uma fita não é apenas uma fita. Um CD não é apenas um disco. Dentro deles pode existir uma voz, um rosto, uma comemoração, uma viagem, uma família inteira reunida em um instante que jamais poderá ser repetido.

E talvez seja por isso que digitalizar uma memória hoje possa ser uma das formas mais concretas de garantir que alguém, muitos anos depois, ainda consiga apertar o botão, assistir, ouvir e dizer: “Eu lembro desse dia.”